A nutricionista Letícia Moreira chama atenção para um ponto central na regulação da saciedade: a atuação dos hormônios intestinais GLP‑1 e GIP. Segundo ela, esses hormônios são liberados pelas células L do intestino quando proteína e gordura chegam ao trato gastrointestinal, desencadeando respostas que incluem maior saciedade, melhor controle glicêmico e redução da fome. Moreira destaca que esse é um mecanismo fisiológico poderoso, mas frequentemente negligenciado em dietas consideradas “saudáveis”, compostas por refeições pobres em gordura e proteína — como frango grelhado sem pele, salada e carboidratos de baixa densidade nutricional. Esse tipo de alimentação, afirma, não ativa adequadamente GLP‑1 e GIP, deixando o indivíduo em um estado de fome constante que muitas vezes é interpretado como ansiedade, quando na verdade se trata de um fenômeno bioquímico.
A partir dessa explicação, Letícia defende que a alimentação pode funcionar como uma verdadeira “caneta emagrecedora natural”, desde que a proporção de proteína e gordura seja suficiente para acionar o sistema hormonal de saciedade. Para ela, quando esses macronutrientes são priorizados, o corpo ativa de forma espontânea o mesmo circuito que os medicamentos tentam reproduzir — porém sem efeitos colaterais, sem custo elevado e de maneira totalmente compatível com a fisiologia humana.
Com isso, a nutricionista argumenta que medicamentos como Ozempic e Mounjaro não criam um mecanismo novo, mas apenas imitam artificialmente um processo que o corpo já é capaz de realizar quando recebe os estímulos corretos. Por isso, ela considera que a alimentação deveria ser o primeiro passo na estratégia de regulação metabólica, deixando o uso de análogos hormonais para situações específicas em que a intervenção nutricional isolada não é suficiente.
A discussão proposta por Letícia Moreira se conecta diretamente com a análise apresentada pelo Dr. Guilherme Takassi em seu vídeo sobre os análogos de GLP‑1. Ele explica que esses medicamentos realmente apresentam alta eficácia no controle glicêmico e na perda de peso, atuando por quatro mecanismos principais: dois metabólicos e dois relacionados ao sistema nervoso central. Entre eles, destacam‑se a redução dos picos de glicose após as refeições, o esvaziamento gástrico mais lento — que prolonga a saciedade —, a diminuição da sensação de fome e a quebra da associação entre comida e recompensa.
No entanto, Takassi alerta para um ponto crítico: ao reduzir drasticamente o apetite, esses medicamentos levam muitas pessoas a ingerirem menos proteína do que o necessário, o que resulta em perda significativa de massa muscular. Ele observa que, em média, cerca de 40% do peso perdido pode ser músculo, o que reduz a taxa metabólica basal e aumenta o risco de reganho de peso após a interrupção do tratamento — geralmente na forma de gordura, não de músculo. Para minimizar esse efeito, o médico enfatiza a importância de manter ingestão adequada de proteína e treinamento de resistência durante o uso das canetas, como forma de preservar massa magra e proteger o metabolismo.
Ao colocar lado a lado as duas perspectivas, surge um ponto de convergência importante: tanto Moreira quanto Takassi destacam que proteína e gordura são elementos centrais na regulação metabólica, seja para ativar naturalmente GLP‑1 e GIP, seja para evitar a perda muscular induzida pela redução do apetite causada pelos análogos hormonais. Ambos reforçam que a alimentação adequada e o estímulo muscular são pilares indispensáveis — com ou sem medicamento.
No fim, a reflexão que fica é simples e profunda: vale a pena usar o medicamento? A resposta depende menos da caneta e mais do contexto, o que deve ser avaliado por um profissional qualificado da área da saúde. Os análogos de GLP‑1 podem ser ferramentas valiosas, especialmente em casos de obesidade e resistência à insulina. Mas, sem uma base sólida de alimentação adequada e estímulo muscular, o medicamento pode resolver um problema enquanto cria outro. A decisão, portanto, não deve ser sobre “usar ou não usar”, mas sobre como usar. E se o estilo de vida está preparado para sustentar os resultados que se deseja alcançar!
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